04 out.A Diferença entre Olhar e Ver

A postura diante de novos textos.

Por Alexandre Mansão

Onde está escrita a lei de Deus? “Na consciência”. (O Livro dos Espíritos, questão 621)Jesus falou da trave nos olhos de alguns, e o Doutrinador nos aconselhava a descartar muitas verdades a aceitar uma mentira. Ora, espíritas, ler com atenção, ler em profundidade, não só será exercício intelectual como uma forma de praticar esses conselhos. Na introdução do Livro dos Espíritos Kardec põe uma diferença de significado entre os termos espírita / espiritismo e espiritualista / espiritualismo, atribuindo inequívoco significado ao termo espiritismo “para indicar a crença a que vimos de referir-nos”, ou seja, somos espíritas, ou pelo menos pretendemos ser.

É importante notar, para benefício do leitor, que manifestações espíritas sempre houveram, e foram interpretadas pelos conhecimentos e crenças daqueles que as testemunharam. Se hoje olhamos para fatos antigos de uma nova forma, é porque há novas premissas, e também porque há uma certa facilidade da avaliação ex-post facto. No entanto, teremos a mesma habilidade crítica em relação a acontecimentos recentes, ou sofremos da miopia da contemporaneidade? Saberemos realmente reconhecer num fenômeno a influência espiritual ou apenas, num ato de fé, enfiamos profundamente uma trave em nosso olhos?

A postura diante de novos textosTornou-se comum a publicação de livros com a autoria espiritual indicada, no modelo, “médium x, pelo espírito y”. Podemos imediatamente aceitar tal publicação como uma publicação espírita, ou seja, tal e qual indicada pelos princípios da Doutrina Espírita? Kardec nos deu a receita da crítica construtiva, como conhecer os bons espíritos e como reconhecer os espíritos “brincalhões”, simuladores e falsos sábios. Por outro lado, sabemos que existe afinidade moral entre espíritos e médiuns, e sendo assim, um médium que não persiga a reforma íntima proposta na Doutrina não estará muito apto a servir de instrumento de um espírito que queira justamente divulgar e aperfeiçoar a prática desta mesma Doutrina.

Nós leitores de uma época de edições comerciais e da Internet (de publicações livres e gratuitas) temos de nos livrar de uma floresta de argueiros e traves que se antepõem em frente ao nossos olhos. A leitura superficial, confiante na qualidade do conteúdo, pode nos levar a um perigoso terreno: o das falsas premissas. Existe uma profunda diferença entre olhar e ver. Olhamos todos os dias para a paisagem de sua janela, mas muitos poucos de nós podem descrever fielmente o que viram. E não é uma questão de memória (podemos fazer a experiência com diferentes pessoas, olhando uma mesma paisagem: as descrições irão variar incrivelmente), mas muito mais uma questão de atenção e método. Olhar os olhos, e por extensão, nossos sentidos todos, olham todo o tempo, até mesmo quando estamos distraídos ou iludidos. Por vezes vemos apenas aquilo que queremos ver, ou que nos fizeram acreditar.

Se pretendemos um esforço de nos aperfeiçoar em nossa reforma íntima, devemos pesar com atenção cada texto que nos é colocado, e, mais ainda, pensar com redobrada atenção quando escrevermos em nome da Doutrina que professamos, pois se a Lei Natural está gravada na nossa consciência, interpretá-la e praticá-la exige esforço e disciplina, pois em outro tempo a esquecemos e desprezamos, e, agora que tentamos lembrá-la, não podemos permitir que o equívoco alheio nos confunda.

Ao encarar um texto novo devemos encará-lo sem nenhum preconceito, pois isso seria pré-julgamento, mas também devemos evitar a confiança irrestrita, o que seria leitura irresponsável e passiva, passível de ser a trave dos nossos olhos.

Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Introdução)

Alexandre Mansão é médico, clínico geral, acupunturista e membro da AME-Sergipe.


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2 comentários para “A Diferença entre Olhar e Ver”

  1. Gil06 out. 08 às 13:45
    Foto do autor

    O grande problema é que a maioria não estuda a codificação como deveria e sai em busca de livros populares, como de Zibia, Ramatis e muitos outros que são anti-doutrinários. Esquecem que a base do Espiritismo é tudo para quem pretende ser Espírita. Uma pena.

    Ótimo texto, abraço.

  2. RICARDO VERAS11 out. 08 às 16:32
    Foto do autor

    SEM A BASE DA CODIFICAÇÃO ESTUDADA E COMPRENDIDA, ESTAREMOS COMPRANDO ‘GATO POR LEBRE’, EXISTEM MUITAS OBRAS MEDIUNICAS DITA ESPÍRITAS, QUE ESTÃO EIVADOS DE ERROS DOUTRINÁRIOS, E ATÉ DE GROSSERIAS QUASE IMPUBLICÁVEIS. SAIBAMOS SEPARAR O JOIO DO TRIGO, NOS INSTRUINDO COM KARDEC, PARA COPREENDER JESUS.

    PAZ E LUZ




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