02 jan.Astrologia é superstição
A astrologia persiste mesmo com os avanços da ciência
Ricardo Musse, especial para a Folha de S. Paulo
Já nos 1950, Barthes e Adorno consideravam as colunas de horóscopo em jornais como espelhos do mundo social. A astrologia persiste mesmo depois da conquista do espaço. Continua destacando a influência do ciclo lunar apesar de homem já ter pisado na lua há décadas. Comenta a conjunção Saturno-Marte independentemente do fato de que este, no momento, recebe a visita de sondas que esquadrinham seu solo. Atribui vibrações poderosas a Plutão, ignorando que os astrônomos recentemente colocaram em questão sua condição de planeta. Ela já havia sobrevivido à invenção do telescópio por Galileu, à teoria heliocêntrica de Copérnico e a todas as descobertas da ciência moderna, que a relegou a um domínio distinto da astronomia. Embora o significado do termo “astrologia” ainda não esteja completamente esvaziado, sobretudo se compreendido como a crença em que a configuração dos astros influencia a ação humana, as práticas sociais que ele designa se modificaram completamente.
Mapas individuais
Adaptando-se à dessacralização do mundo, a astrologia sufocou sua dimensão mágica e ritualística, restringindo sua função de oráculo e limitando o seu alcance enquanto técnica de adivinhação.
Apesar dos esforços para situá-la ora como um ramo do esoterismo, ora sob o guarda-chuva de uma contraditória e indefinida “ciência hermética”, ora como saber auxiliar da hermenêutica junguiana, seu lugar social, seu significado cultural e sua prática se pautam pela lógica da cultura de massa.
É verdade que se disseminou a exigência de mapas astrológicas individualizados (ampliando as consultas aos profissionais do gênero e o advento de sites na web que fornecem esses serviços), em consonância com as tendências de mercado que privilegiam o atendimento personalizado, ao invés do consumo estandartizado. Mas, de modo geral, a peça de resistência da astrologia continua sendo a coluna astrológica, item quase obrigatório nos jornais e revistas de grande circulação.
Pés de página
Obscurecida pelas imagens oníricas da propaganda, relegando ao pé da página em seções dedicadas ao comportamento ou à diversão, a coluna astrológica não possui mais a ressonância e o impacto que adquiriu no pós-guerra. Na década de 1950, simultaneamente e de forma independente, Theodor Adorno e Roland Barthes se debruçaram sobre o seu significado.
Adorno publicou, em 1957, “As Estrelas Descem à Terra”, divulgando pesquisa que desenvolveu de 1952 a 1953. Trata-se de uma análise ao mesmo tempo especulativa e empírica da coluna de astrologia do “Los Angeles Times”. Nesse mesmo ano, Barthes reuniu em “Mitologias” uma série de artigos redigidos entre 1954 e 1956, dentre eles uma interpretação do semanário “Elle”.
Há mais que uma coincidência temporal. Apesar das diferenças relativas aos métodos e, em parte, ao instrumental teórico, prevalecem as similitudes no que tange aos objetivos (a retomada da análise marxista da ideologia à luz da persistência do mito no mundo racionalizado), à delimitação geral do objeto (a indústria cultural) e até mesmo às conclusões da investigação.
Ambos concebem a mitologia contemporânea como transmutação da ação histórica em natureza, da “eventualidade em eternidade”. Concordam também que se trata de um sistema de comunicação, de um modo de significação, de uma forma, em suma. Destacam igualmente que o discurso astrológico conforma uma descrição realista das tendências psicológicas de um meio social preciso, o dos leitores.
Assim, a astrologia, em lugar de abrir brechas para o onírico (afinal, trata-se de uma prática assentada em relações ocultas), se constrói como um espelho do mundo social, como uma evidência realista das condições de vida da pequena burguesia, transmutada em norma universal.
“Semi-alienação”
As colunas astrológicas de hoje seguem o padrão e a estrutura desenvolvidas por Adorno e Barthes. São ainda exemplares de uma “superstição de segunda mão” (Adorno) ou de uma “semi-alienação” (Barthes).
Práticas de reforço a uma adequação conformista ao curso do mundo, elas se assentam em paradoxos como a oscilação entre o ato de infundir angústia e o de satisfazer o narcisismo (Adorno) ou a afirmação de um puro determinismo e o fortalecimento da força de vontade (Barthes).
As modificações dizem respeito aos conteúdos impostos pelas novas exigências do trabalho (a demanda pela ação flexível) e consumo (com o hedonismo substituindo o ascetismo). Com isso, alteram-se os diagnósticos e os conselhos atinentes a cada uma das rubricas: vida familiar, amorosa, financeira, profissional, social…
O avanço desmesurado das técnicas de controle, a submissão do indivíduo às recomendações de “especialistas” permite que a astrologia sobreviva como uma prática de auto-racionalização, degradando o ideal de autoconhecimento em técnica de transformação interior e autocontrole.
Barthes considera que o modelo do discurso astrológico são as formas degradadas da literatura realista pequeno-burguesa. A analogia hoje seria mais simples, pois são quase indistinguíveis a coluna astrológica e a literatura de auto-ajuda.
Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Universidade de São Paulo (USP).
Em “MITOLOGIAS”, Barthes desmistificou a vida cotidiana.
Da redação (Folha de S. Paulo)
Uma das obras pioneiras na análise e interpretação da cultura de massa, “Mitologias” é uma reunião de artigos publicados por Roland Barthes na revista “Lês Lettres Nouveles” entre 1954 e 1956. Barthes (1915–1980), que já trabalhava no Centro Nacional de Pesquisa Científica (Paris), se tornou célebre internacionalmente com a obra, publicada em 1957. Nela, o semiólogo opera uma “desmistificação” de objetos de vida cotidiana, interpretando desde a relação dos adultos franceses com os brinquedos até o striptease parisiense. As relações que cria entre objetos incluem comparações entre a catedral gótica e seu “equivalente” da época: o automóvel. Em prefácio redigido em 1970, Barthes resume: “Só haverá semiologia se esta finalmente se assumir como semioclastia”. O livro foi lançado no Brasil pela Difel (tradução de Rita Buongermino, Pedro de Souza e Rejane Janowitzer, 256 páginas, R$ 32,00).
Comentários
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Olá!
Apesar das duras críticas, a astrologia está sempre forte. A prova é que qualquer jornal tem uma coluna de horóscopo e a maioria das pessoas, mesmo dizendo não acreditar, lê. Seu texto é bem pertinente.
Eu tenho um site de astrologia. Se interessar, acesse:
http://www.astral.oxigenio.com
Abraço,
Silvia. :-)
Uma visão, ainda que verdadeira, incompleta sobre o tema.
Antes de analisar as explicações pseudo-científicas dos fundamentos astrológicos, cabe observar que a astrologia não deixa de funcionar porque a astronomia a despreza.
Dentro da astrologia, que nada mais é do que outro recurso de que se utiliza o homem para o auto-conhecimento, há, como em todo lugar, estudos sérios e reflexivos, bem como os superficiais e caça-níqueis.
O homem, como é de convir, é que deve discernir.
Astrologia é supertição? Não mais. Pelo menos, ela já não se coloca desta posição. Mas é um mito? Não também, visto que, através de uma análise profunda, pode nos indicar nossas tendências ruins, que temos de burilar.
O espírita tem que ter um comportamento mais inquisitivo, mas, não alcançando as explicações diretas, não deve largar de mão algo só porque não compreende de todo.
“Porque quem não é contra nós, é conosco” (evangelho)
Thaís, eu fico com a posição de Allan Kardec sobre o assunto. Acho clara, lógica e definitiva:
http://duplavista.com.br/arquivo/signos-zodiacais
Oi amigo vc tem toda razão, q Jesus te ilumine, agora e sempre.
bjo no seu coração.
Dilma.
A astrologia é uma ciencia muito bela, mas que requer um estudo muito profundo para se obter resultados concretos, e como ela envolve um outra ciencia ainda tão pouco estudada pelo proprio espiritismo, os fluidos e vibrações, nada melhor que o tempo para lhe atestar se funciona não com exatidão, no mais, quem quiser dizer em contrario, que faça o que o Kardec pediu a uma pessoa em o que é o espiritismo, como querer defender ou combater algo sem um estudo sério, para pode faze-lo é necessario bases solidas, como Karde disse ao individuo, mesmo que vc visse uma ou outra reunião não poderia contemplar o todo, leva tempo e comprometimento!
Fluidos pouco estudado pelo Espiritismo? Com todo respeito que você merece Luiz, está redondamente enganado.
Sobre astrologia, Kardec deixou bem clara sua opinião:
http://duplavista.com.br/arquivo/signos-zodiacais
Grande abraço, fique em paz!
Ai que está, opnião do Kardec, não a palavra final, dessa forma fica como um endeusamento do Kardec, tanto que no o que é o espiritismo ele mesmo deixa claro de quem é a doutrina, dos espiritos, portando nada de Kardecismo, é espiritismo, e ele mesmo em outros momentos deixou claro que o que não compreendia daria ao tempo a oportunidade de aclarar o fato, com o recusai verdades a aceitar uma mentira, pois o tempo provara se há fundamento ou não.