17 dez.Livro A Liberdade do Cristão

Ciro Mioranza

Lutero - A Liberdade do Cristao“A Liberdade do Cristão” (Editora Escala, 128 páginas, formato 13 x 19 cm, R$ 4,90, à venda nas bancas de jornais), é um documento que Lutero elabora e envia ao papa, a fim de expor sua doutrina e sua visão teológica da “justificação pela fé”. De leitura agradável e cativante, este opúsculo é composto de 30 itens, nos quais o autor ressalta três pontos principais do Cristianismo autêntico: fé, palavra de Deus e obras.

São os três pilares que constituem a base da verdadeira vida cristã e o princípio da liberdade que movem o cristão para Deus, por meio de Cristo. O resto é supérfluo, é entulho pseudo religioso, é acréscimo indevido, é superstição anexada ao longo dos séculos, é desvirtuamento da fé cristã processada pela fraqueza do homem e pela ingerência do príncipe do mal.

Embora Lutero não diga isso expressamente, deixa-o subentendido nas entrelinhas dessa sua tese da “justificação da fé”. Esta encontra seu ponto de apoio, seu impulso na Bíblia, ou seja, na palavra, palavra de Deus, palavra de Cristo, filho de Deus. A revelação de Deus que fundamenta a fé foi feita pela palavra e é essa palavra que merece fé. As obras são decorrência. Quem crê na palavra, quem tem fé, dá bons frutos, exterioriza sua crença por seus atos, suas atitudes de verdadeiro homem de fé, de cristão. Esta é a teologia simples, depurada, transparente que não necessita de adendos, normas, imposições de qualquer espécie.

Lutero sabia que sua doutrina haveria de provocar muitas interpretações e questionamentos, porquanto mexia com uma tradição religiosa secular, com uma Igreja mergulhada em empreendimentos escusos com o poder político, com uma instituição cristã que havia séculos dominava o cenário político, econômico, legislativo e social da Europa, com uma religião que privilegiava o clero como classe social superior e abandonava o povo à sua miséria, à sua ignorância, a suas superstições. Nesse contexto, era inevitável que o movimento pudesse descambar ou, pelo menos, fazer aflorar descontentamentos que poderiam levar a sublevações e revoltas. E foi o que realmente aconteceu.

Por essas razões, Lutero escreve um texto dirigido a toda a cristandade, conclamando a todos para que se mantenham distantes de discórdias e ódios que certamente haveriam de prejudicar o movimento de Reforma da religião e dos costumes. Esse é o objetivo do segundo texto presente neste livro, intitulado “Sincera admoestação a todos os cristãos para que evitem toda sublevação e toda revolta”.

O terceiro texto – “A autoridade temporal e em que medida se lhe deve obediência” – tem por objetivo, além de defender a legitimidade do poder político constituído, pregar o respeito e a obediência a ele devidos. Lutero não procura motivações jurídicas para elaborar esse texto, mas se baseia unicamente na Sagrada Escritura, ainda que lance mão de uma lógica filosófica típica de sua época. De qualquer modo, é um texto precioso que reflete o pensamento, em parte pelo menos, do Renascimento que já estava em seu ocaso. Se Lutero tivesse lido “O príncipe” de Maquiavel, seu contemporâneo, talvez o refutasse, mas certamente não se interessaria muito por ele, pois, seu mundo era outro, sua fé lhe abria caminhos para outro reino, o do Cristo. Além de líder, de homem de fé inabalável, Lutero foi um grande sonhador. Sonhava com um mundo de fé, um mundo de Cristo, um mundo voltado para o reino do Além, o Reino de Deus.

Trecho extraído da apresentação do livro “A Liberdade
do Cristão”, Editora Escala, tradução de Ciro Mioranza).


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