Orgulho e ignorância, males perecíveis

Eliana Thomé

E a altivez do homem será humilhada, e o orgulho dos varões se abaterá, e só o Senhor será exaltado naquele dia.
 (Isaías, 1:17)



O “Novo testamento” é farto em apontar Jesus minimizando a dor do semelhante. Quantos não se beneficiaram do seu dom de cura! Mateus logo no início do seu “Evangelho” (4:23) conta uma passagem em que Ele percorre a Galiléia curando todas as doenças e enfermidades entre o povo.


Engana-se, no entanto, quem busca no Cristo somente os efeitos dos fenômenos, pois o Cristo foi, sobretudo, o médico das almas. O corpo, ferramenta da alma, é abandonado no ato da morte, restando ao espírito viver sua própria realidade, que é o mundo espiritual; sendo o despertar segundo a caminhada. Aquilo que Tiago especificou na Epístola 2:24: “(…) é pelas obras que o homem é justificado, e não somente pela fé“. Ou seja, a sábia lei de Deus define nossa posição do outro lado segundo o esforço empreendido em adquirir a Perfeição. “A cada um segundo a sua obra”, já dizia Jesus.


Sabedor que a alma doente, imperfeita é foco de desastre e de desarmonia, ensinou o Cristo nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, através da prática do bem e do amor a Deus.


De nada adianta um belo corpo se a alma não é sadia, apresentando pensamentos contaminados por toda sorte de perturbação que resultam em atos abomináveis, a chamada morte física e moral tratada em “O Livro dos Espíritos” na questão 714a, quando analisa os excessos de todas as espécies praticados pelo homem encarnado.


O mal jamais engrandece, jamais conquista, jamais sacia a alma que almeja a paz. Assim, aquele que ainda abriga sentimentos inferiores em seu íntimo, surge na categoria dos doentes da alma.


Dois tipos deles nos interessam aqui: primeiro, os que pecam por ignorância, se assim podemos chamar os que tombam no erro; e segundo, os que pecam por orgulho. Se os primeiros são movidos muitas vezes pela preguiça em querer evoluir – pois a obra de evolução não é tarefa fácil, exige empenho, disciplina e muito querer -, o segundo, sabe, conhece, mas o orgulho o impede de abraçar e viver, de verdade, as leis divinas, que impõem simplicidade e fraternidade.



Para os orgulhosos ficamos com a sugestão da Espiritualidade, em um dos livros de João Nunes Maia, quando diz que no momento em que estivermos em dúvida se o que estamos fazendo é certo ou errado, que nos indaguemos simplesmente se Jesus faria aquilo. Fatalmente teremos a resposta, que nem sempre é aquela que queremos ver e muito menos ouvir; tal como escreveu Paulo na Segunda carta aos Coríntios, 12:20: “Porque temo que, quando chegar, não vos ache quais eu vos quero, e que eu seja achado por vós qual não me quereis“.


Somos, lembremo-nos, experts em querer justificar nossos atos e nossas ações nem sempre com o olhar crítico e sincero.


Outra roupagem da ignorância, não menos triste e nem menos fatal naquilo que impede o ser de evoluir, é quando ela se apresenta sem nenhum sentimento de maldade, revelando tão somente o ser ignorante das realidades espirituais, a exemplo das leis que regem o Mundo Espiritual.


Sim, o homem pode não acreditar na vida após a morte, pode até mesmo querer ignorar qualquer compromisso de fé, mas deve atentar que os ensinamentos de Jesus dão-nos uma cartilha perene de conduta ilibada e moral calibrada.

Orgulhosos de todas as matizes e ignorantes de todos os calibres, a verdade é uma só, conforme a questão 987 de “O Livro dos Espíritos“, referindo aos que nada fazem para se libertar da influência da matéria e, por tabela, diríamos, da própria imperfeição, seja ela movida pelo orgulho, pelo egoísmo ou pela ignorância: “Desde que não deu nenhum passo na direção da perfeição, deve recomeçar uma existência semelhante à que deixou“. Como disse Jesus em Mateus, 24:6, referindo às guerras e aos rumores de guerras que se fariam em seu nome: “… forçoso é que assim aconteça; mas ainda não é o fim“.

E o que é a imperfeição do orgulho e da ignorância senão uma guerra íntima do homem de si para consigo? Importa hoje sabermos que temos caminhos e respostas. Melhor ainda: solução; pois perecíveis são esses males. E lutar contra eles é dever moral de cada um.


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