Quem sou eu?

Tam Huyen Van

Quem sou euPenso em quantas vezes me fiz esta pergunta. Não foram poucas. E ela ainda persiste, teimosa, em minha mente. Muitos anos atrás, quando iniciava meu contato com o Zen, tive o primeiro contato direto com esta pergunta. Embora não seja uma frase exatamente tradicional na cultura buddhista, ela nasce quase naturalmente na experiência meditativa. É como um Koan, uma questão fundamental, talvez um dos mais cruciais koans jamais apresentados à mente humana. E como todo koan, sua resolução exige árduo esforço, sensibilidade para compreender seu real significado e muita coragem para enfrentar o fato de que não existe resposta. Ou, mais exatamente, uma resposta nunca será suficiente.

Frequentemente eu costumo ler as apresentações pessoais que povoam as comunidades virtuais, atualmente. Em meio ao caos de apelidos e nomes falsos, surgem também as muitas definições de si mesmo, algumas sinceras, algumas pretensiosas, outras frias ou arrogantes, algumas românticas, outras eróticas. Quantas são as formas em que podemos nos imaginar? Na verdade, nenhuma apresentação pessoal responde à pergunta fundamental; nenhum de nós sabe realmente quem é. Literalmente todas as tentativas de auto-definição resultam apenas em uma declaração de intenções: nós nos definimos através daquilo que desejamos ser, ou imaginamos ser.


Mas, apesar de Narciso gostar tanto de espelhos, ele tem muito medo de encarar a si mesmo – sua paixão é pelo pouco que sua aparência lhe oferece, e não pelo muito que sua alma significa. Muitas vezes observei quando pessoas passam à frente de algum espelho. Contemplei seus olhares quando elas param quase que automaticamente diante de seus reflexos, percebi que elas, como Narciso, olham a superfície: analisam as rugas, ajeitam a roupa, medem seus músculos, peitos, coxas… Quando olham a si mesmas em um espelho, seus olhares focam a superfície polida, e quase nunca penetram no significado daqueles rostos e corpos que estão ali, à frente, como esfinges prontas a serem decifradas. Quem é capaz de realmente enxergar a si mesmo? Sempre achei interessante o fato de que espelhos, embora sejam instrumentos que pretendam refletir coisas e pessoas, sejam tão inúteis para mostrá-las como realmente são.

Eis porque o exercício meditativo, embora tão simples e direto, resulta em atrair tão poucos praticantes sérios, dedicados. A prática contemplativa nos coloca diante do espelho da Plena Consciência, e o reflexo que vemos lá não disfarça nossa realidade interior. E porque temos tão grande dificuldade de ir além da superfície e buscar fundo novas respostas para nossa realidade? Não deveria ser assim.

Além disso, a idéia que possuímos de nós mesmos sempre obscurece o que realmente somos, criando em nossa mente uma ilusão de aparências, um complexo de definições auto-indulgentes em um extremo, ou depreciativas em outro. Diante do Eu, sempre optamos por desviar nossos olhos e ver apenas o que nos convém, seja para o melhor ou para o pior. Na verdade falta-nos uma meta, uma palavra de orientação, temos carência de apoio correto para a tarefa sutil de perceber a nós mesmos diante da existência. Sozinhos, temos medo de ver além da pele, temos medo de ver além daquilo que imaginamos ser. E quando este medo e solidão se tornam muito grandes, projetamos no outro as expectativas que irão aliviar nossas angústias e incertezas, e aí o fenômeno da paixão – com toda a sua carga de interpretações parciais – está instalado em nosso coração.

A superficialidade de compreensão do Eu cria um grande obstáculo para a felicidade. Penso que todos nós deveríamos ter a prática cotidiana de manter a questão “Quem Sou Eu?” constantemente em nossa mente. Mas faço uma advertência: ao contrário do que você possa imaginar, não tente respondê-la. Apenas faça a pergunta e respire, espere, contemple. Não procure fazer uma lista de coisas que você acha que é, ou pensa ser. Não tente, tampouco, apresentar a si mesmo através de palavras poéticas e misteriosas sobre a luz ou as estrelas, sobre força ou bondade. Não se diga o sol, ou a lua, ou o riacho cristalino. Apresente-se a você mesmo de uma forma plena e atenta, sem a necessidade de subterfúgios. O verdadeiro Eu habita além da caverna das palavras, onde simplesmente nomeamos as sombras que se formam na parede de nossa ilusão: sombras de todas as coisas, sombras de pensamentos e sentimentos, sombras de nossa Face Original – apenas sombras, nunca as coisas em si. Ainda que muitas vezes belas e momentosas, as palavras não definem as coisas em si; elas apenas apresentam o mundo com as cores da inspiração e do êxtase. Mas o que somos, isso extrapola em muito os êxtases e agonias das sofridas paixões humanas.


Ainda que seja um questionamento primordial para tudo o que podemos descobrir de nós mesmos, este koan jamais será respondido. Tudo o que podemos dizer de nós mesmos, o fazemos para fora, para os ouvidos do mundo. À nós mesmos, o “Quem sou eu?” – quando finalmente compreendido – retorna um fértil silêncio. Mas não pense que este silêncio seja o mesmo para todas as pessoas, e que eu acabei de lhes dar uma interpretação final deste koan. Há mais, muito mais, neste silêncio fértil e profundo, e cada um de nós precisa experimentá-lo por si mesmo e em si mesmo, intensa e completamente.

Na verdade, a descoberta de si depende demais da vivacidade de nossas almas, da alegria e serenidade de nosso coração e do grau de intensidade em que mergulhamos na prática da Plena Consciência, contemplando a nossa realidade com a clareza fértil de uma mente livre. Mente livre: esta é a chave. Liberte-se, deixe seu nome-e-forma fluir fácil de seu coração e, por favor, desista das definições.

Quer realmente olhar a si mesmo? Feche os seus olhos e não veja aquele que se reflete no espelho. Deixe de querer ser apenas o que marca sua superfície, e permita que aos poucos sua face original se manifeste.

Liberte-se. Eis tudo.


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1 comentário para “Quem sou eu?”

  1. Adauto31.10.09 - 00:19
    Foto do autor

    Tam,

    Adorei o seu artigo. Creio que todos nos, num dado momento da existencia, fara esta pergunta; afinal quem sou eu? Mas enquanto a resposta exata nao vem, tento fazer versos, buscando abrir caminhos, rumo a esta verdade:

    Abracos.




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